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Resenha: Precisamos falar sobre Kevin



Título: Precisamos falar sobre Kevin
Autor: Lionel Shriver
Gênero: Drama
Editora: Intrínseca
ISBN: 9788598078267
Páginas: 463 (edição com capa inspirada no pôster do filme)
Nota: 5/5

Sinopse: 
Lionel Shriver realiza uma espécie de genealogia do assassínio ao criar na ficção uma chacina similar a tantas provocadas por jovens em escolas americanas. Aos 15 anos, o personagem Kevin mata 11 pessoas, entre colegas no colégio e familiares. Enquanto ele cumpre pena, a mãe Eva amarga a monstruosidade do filho. Entre culpa e solidão, ela apenas sobrevive. A vida normal se esvai no escândalo, no pagamento dos advogados, nos olhares sociais tortos.Transposto o primeiro estágio da perplexidade, um ano e oito meses depois, ela dá início a uma correspondência com o marido, único interlocutor capaz de entender a tragédia, apesar de ausente. Cada carta é uma ode e uma desconstrução do amor. Não sobra uma só emoção inaudita no relato da mulher de ascendência armênia, até então uma bem-sucedida autora de guias de viagem.Cada interstício do histórico familiar é flagrado: o casal se apaixona; ele quer filhos, ela não. Kevin é um menino entediado e cruel empenhado em aterrorizar babás e vizinhos. Eva tenta cumprir mecanicamente os ritos maternos, até que nasce uma filha realmente querida. A essa altura, as relações familiares já estão viciadas. Contudo, é à mãe que resta a tarefa de visitar o "sociopata inatingível" que ela gerou, numa casa de correção para menores. Orgulhoso da fama de bandido notório, ele não a recebe bem de início, mas ela insiste nos encontros quinzenais. Por meio de Eva, Lionel Shriver quebra o silêncio que costuma se impor após esse tipo de drama e expõe o indizível sobre as frágeis nuances das relações entre pais e filhos num romance irretocável.


Vamos falar sobre Kevin? Mas também vamos falar sobre Eva, sobre Franklin, e sobre essa família que se esconde atrás de uma fotografia de catálogo de revista.

Precisamos falar sobre Kevin é uma das obras que mais me tocou, e um dos livros que sei que vou levar para o resto da vida comigo. A ironia que ele nos traz mexeu muito comigo na primeira leitura, mas na releitura isso se tornou ainda mais forte. A todo o momento eu parava de ler, horrorizada tanto com os atos do Kevin, quanto com os medos e fingimentos de Eva, e principalmente com a venda que Franklin insiste em mantém.

E tenho que dizer que a única pessoa que realmente gosto nessa história é a pobre e inocente Célia, justamente por ela ser a única alma realmente pura na história toda, que acabou caindo em uma família disfuncional ao lado de um irmão psicopata. Aliás, como Eva previu sobre a filha, apesar de ser encantadora é uma criança facilmente esquecível, e pouco se ouve falar nela quando lemos resenhas sobre tanto o livro quanto o filme. Pouco e debate sobre os impactos que viver sob a sombra dessas 3 pessoas, ou até mesmo dela não passar de uma manobra de redenção, uma prova de que Eva poderia sim criar uma criança normal, porém Célia não é muito abordada nas cartas da Eva, e a infância dela passa corrida, porém não posso negar que existem motivos para tal.

Mas estou me adiantando, vamos falar sobre Kevin, a criança que nunca foi verdadeiramente desejada por nenhum dos pais.

“Que sorte temos quando somos poupados daquilo que achamos que queremos!” Página 50.

Apesar de Franklin demonstrar querer sim ter um filho, isso é questionável, por vezes senti na leitura que o que ele realmente queria não era o filho, e todas as responsabilidades que isso acarretaria, ele queria a ideia de um filho, assim como sempre sustentou o ideal do país que vivia. Franklin é um americano, que ama os Estados Unidos (ou o que ele acredita que o Estado Unidos é), ele queria a clássica família americana, um filho americano, uma esposa americana, uma casa americana, com um quintal americano, um balanço americano, etc. E por isso talvez ele nunca conseguiu ver nem o Kevin, nem a Eva, pelo que eles realmente eram, tudo que ele via era o que queria ver, a sua família perfeita, com um filho fazendo “coisas que meninos fazem”. Ou talvez ele só tivesse medo de admitir que algo estava errado, de ter que lidar com isso. Seja qual for o  motivo da forma como ele trata o Kevin, isso teve uma influencia direta sobre a quinta-feira.

Eva não queria ter um filho, ela realmente não queria, e talvez a maior ironia tenha sido o fato de ela tomar o primeiro passo para que isso acontecesse. Apesar disso nenhuns dos seus motivos foram suficientes para ela amar a pequena criança (com problemas de temperamento) que nasceu. Inicialmente temos uma Eva egoísta, com medo de perder o marido e ficar sozinha, e esse foi o que a levou a tomar a maior decisão da vida dela. Depois temos uma Eva que apenas sabe que o marido, e o casamento, não vão aguentar uma desistência, que ela não pode fazer nada e quiser continuar com Franklin, porque o que ele mais quer é ser pai, e esse é um sentimento que continua com ela até o fim. A questão é, nenhuma dessas duas coisas foi forte o suficiente para Eva realmente se tornar uma mãe, ela foi apenas a progenitora de Kevin, e o relacionamento deles já começa de maneira gélida. Depressão pós-parto, problemas de saúde, o temperamento difícil do Kevin já na mais tenra infância, também não favoreceram o fortalecimento dessa relação. E talvez essa falta de sinceridade nos atos de Eva com relação ao filho, sempre tentando fingir ser uma boa mão, ao mesmo tempo que tem a certeza que ele não é uma criança normal e que faz de tudo para separar os pais e causar intrigas, além da certeza que ele apenas quer tornar a vida dela miserável, também contribuíram para a dita quinta-feira.

Conclusão, ninguém realmente queria o Kevin, e talvez ele também não quisesse estar ali. Ainda assim temos que levantar a questão, é apenas culpa dos pais o como tudo se desenvolveu? Podemos jugá-los pela maneira que criaram o filho, e pelo que ele acabou fazendo?

“Você, na verdade, só consegue punir quem já é pelo menos um pouquinho bom.” Página 170.

Desde pequeno vemos que há algo errado com Kevin, é óbvio que isso tenha sido desenvolvido por causa da forma como a mãe o tratava ainda bebe, já que ela sempre demonstra frieza com ele, desde o primeiro momento que o pega (ela esperava uma grande revelação, um amor imutável e inquestionável assim que o bebe nascesse, o que não aconteceu, e a decepcionou muito). Porém conforme vemos Kevin crescer e o quanto ele se torna manipulador, torna mais evidente que talvez não seja ó uma questão do desapego da mãe que influencie no seu comportamento.

Kevin acaba se tornando uma pequena cópia de Eva. E ela ressalta isso a todo o momento nas cartas, ele não parece com ela apenas fisicamente, mas também tem um temperamento e ideais extremamente parecidos. Assim como o relacionamento manipulador e dissimulado que ele desenvolve com o pai é parecido com a ideia de pessoa quer Eva mostrava a Franklin que era no inicio do relacionamento deles.

Lionel Shriver em nenhum momento tenta nos mostrar como evitar que outras quintas-feiras aconteçam. Precisamos falar sobre Kevin é sim um livro sobre família, sobre diálogos, coisas não ditas e medos não expostos, e não sobre assassinato em massa ou psicopatas americanos Lionel Shriver tem uma escrita crua e cruel, ela não passa a mão na cabeça de nenhum de seus personagens, e coloca em evidencia todos os “podres” dessa dita perfeita família americana, mostrando que uma família é muito mais que uma fotografia em uma caro porta retratos sobre a lareira.

É verdade que não podemos isentar os pais da culpa, algo que, pelo menos no caso da Eva, ela vai ter que carregar consigo para o resto da vida, é ela que, enquanto Kevin está preso recebe olhares de esguelha, que é julgada por não ter desenvolvido o seu papel, e tem (como a narrativa iniciou) os ovos quebrados no supermercado. Porém é claro no desenrolar da narrativa que apenas o papel dos pais não seria capaz (provavelmente) de formar a personalidade do Kevin como ela foi formada.
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