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Resenha: A Sombra do Vento


Título: A Sombra do Vento
Gênero: Ficção
ISBN: 9788560280094
Autor: Carlos Ruiz Zafón
Ano de publicação: 2007
Editora: Suma de Letras
Número de páginas: 399
Nota: 4

Sinopse:
Numa madrugada de 1945, em Barcelona, Daniel Sempere é levado por seu pai a um misterioso lugar no coração do centro histórico: o Cemitério dos Livros Esquecidos. Lá, o menino encontra A Sombra do Vento, livro maldito que mudará o rumo de sua vida e o arrastará para um labirinto de aventuras repleto de segredos e intrigas enterrados na alma obscura da cidade. A busca por pistas do desaparecido autor do livro que o fascina transformará Daniel em um homem ao iniciá-lo no mundo do amor, do sexo e da literatura.

Numa narrativa de ritmo eletrizante que mistura gêneros como o romance de aventuras de Alexandre Dumas, a novela gótica de Edgar Allan Poe e os folhetins amorosos de Victor Hugo, Carlos Ruiz Zafón mantém o leitor em estado de contínuo suspense. Ambientada na Espanha franquista da primeira metade do século XX, entre os últimos raios de luz do modernismo e as trevas do pós-guerra, A Sombra do Vento é uma obra sedutora, comovente e impossível de largar. Uma grandiosa homenagem ao poder místico dos livros.
"- Daniel, o que você vai ver hoje não pode contar a ninguém - advertiu meu pai. - Nem ao seu amigo Tomás. A ninguém." Pág. 7
A Sombra do Vento é um livro difícil de classificar. Tem mistério, mas não é policial. É carregado de tensão, mas não é um suspense. Tem histórias de amor, mas não é um romance. Talvez seja muito recente para ser classificado como se deve, mas certamente o tempo se encarregará de lhe dar o título que merece: A Sombra do Vento tem tudo para se tornar um clássico.

A história tem início na Espanha de 1945, recém-saída da Segunda Guerra Mundial e de uma guerra civil. Em uma madrugada, o jovem Daniel Sempere, então com 10 anos, acorda aflito, sem conseguir lembrar o rosto da mãe que morrera quando ele era ainda muito pequeno. O pai então o leva a um lugar perdido nas entranhas de Barcelona: o Cemitério dos Livros Esquecidos, local secreto onde repousam livros esquecidos pela humanidade. Os visitantes do Cemitério ganham o direito de escolher um dos muitos livros guardados ali, e têm a missão de fazer com que aquele livro viva novamente.

Daniel caminha pelas estantes a procura de seu novo livro e é atraído por um título: A Sombra do Vento, de Julián Carax. O garoto o leva para casa e o devora numa sentada só. Fica fascinado e ansioso por conhecer mais obras desse autor, de quem até então ele nunca ouvira falar. Assim, Daniel começa uma pequena investigação sobre o autor e sua obra.
"Cresci no meio de livros, fazendo amigos invisíveis em páginas que se desfaziam em pó e cujo cheiro ainda conservo nas mãos." Pág. 7
Perdido em labirintos durante a sua investigação, Daniel acaba abandonando-a por um tempo, e nesse período o leitor o acompanha em suas descobertas sobre o mundo e suas aflições adolescentes. No meio de uma desilusão amorosa acaba conhecendo Fermín Romero de Torres, um ex agente secreto do governo que acabara falido, e o leva para trabalhar consigo e com seu pai na livraria da família. Com a ajuda de Fermín, Daniel retoma as investigações sobre Carax e se vê envolvido com todo o perigo e tragédia da vida do autor, cuja obra inteira havia sido queimada por um maníaco saído das páginas de A Sombra do Vento. Mas, enquanto se arrisca para saber mais sobre o misterioso Carax, Daniel acaba descobrindo muito sobre si mesmo.

Zafón toca a narrativa de uma maneira formal e poética que é rara de ser vista hoje em dia. Com sutileza, reveste seu texto com diversas críticas à sociedade moderna. Mas apesar do seu tom clássico, a leitura é muito gostosa e o Daniel é um personagem muito cativante, o que mantém a atenção do leitor presa até a última página. E quando o cômico Fermín entra em cena com seu humor involuntário e sua lealdade ferrenha, o livro se torna simplesmente apaixonante.
"O epílogo da história não melhorava as expectativas, No meio da manhã, um furgão cinzento da delegacia havia deixado dom Federico jogado na porta de casa. Estava ensanguentado, com o vestido em farrapos, sem a peruca nem as bijuterias finas. Haviam urinado em cima dele, e ele tinha a cara cheia de contusões e cortes. O filho da padeira o havia encontrado encolhido na porta de entrada, chorando como uma criança e tremendo.- Não é direito, não senhor - comentou Merceditas, encostada na porta da livraria, longe das mãos de Fermín. - Coitadinho, é pessoa bondosa e não se mete com ninguém. Porque gosta de se vestir de mulher e sair cantando? E daí? As pessoas são muito malvadas.Dom Anacleto permanecia calado, com o olhar baixo.- Malvadas não - observou Fermín. - Imbecis, o que não é a mesma coisa. O mal pressupõe uma determinação moral, intenção e certa inteligência. O imbecil ou selvagem não pára para pensar ou raciocinar. Age por instinto, como besta de estábulo, convencido de que está fazendo o bem, de que sempre tem razão e orgulhoso de sair fodendo, desculpe, tudo aquilo que lhe parecer diferente dele próprio, seja em relação à cor, credo, idioma, nacionalidade ou, como no caso de dom Federico, pelos hábitos que tem nos momentos de ócio. O que faz falta no mundo é mais gente ruim de verdade e menos espertalhões limítrofes." Pág. 128/129
A única crítica negativa que tenho a fazer é em relação à diagramação. A fonte é muito pequena, e isso atrapalha bastante a leitura. Eu tenho problema de vista e mesmo com os óculos enfrentei algumas dificuldades para ler. Tinha que aproximar muito o livro do rosto e isso me causava dores de cabeça, o que me obrigava a abandonar a leitura por algumas horas. Fica então a sugestão para uma futura reedição: aumentar o tamanho da fonte.
"Numa vitrine, vi um cartaz da Philips anunciando a chegada de um novo messias, a televisão, que diziam que mudaria nossas vidas, transformando-nos em seres do futuro, como os norte-americanos. Fermín Romero de Torres, que sempre estava a par de todas as invenções, já havia profetizado o que iria acontecer.- A televisão, amigo Daniel, é o Anticristo, e eu digo que bastarão três ou quatro gerações para as pessoas não saberem mais nem peidar por conta própria e para o ser humano voltar à caverna, à barbárie medieval, a estados de imbecibilidade que a lesma já superou por volta do Pleistoceno. Esse mundo não vai acabar por causa da bomba atômica, como dizem os jornais, vai acabar, sim, de tanta risada, de tanta banalidade, por essa mania de se fazer piada com tudo, e além do mais, piadas ruins." Pág. 89


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