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Resenha - As brumas de Avalon (4 volumes)

Por: Thalinne Mafra







Sinopse: 
Em As Brumas de Avalon, Marion Zimmer Bradley reconta a lenda do rei Artur, descrevendo seus esforços para unificar a Bretanha contra a invasão Saxônica, a partir da perspectiva das poderosas mulheres do reino de Avalon e Camelot. Mesmo aqueles que normalmente não gostam das lendas de Artur irão se encantar com as mulheres por trás do trono. Morgana e Guinevere lutam pelo poder, usando Artur para promover as suas respectivas visões de mundo. As intrigas e a política do reino de Camelot descritas em As Brumas de Avalon se passam quando o Cristianismo começa a dominar a ilha-nação da Bretanha, estabelecendo o conflito com os cultos pagãos.



Ficha completa de cada volume no final da resenha

"Eles acreditam - contou Viviane com sua voz aveludada e baixa - que não há Deusa, pois o princípio da mulher, dizem eles, é o princípio do mal. Por meio da mulher, na opinião deles, o mal entrou neste mundo. Há uma fantástica história judaica sobre uma maçã e uma serpente."A Senhora da Magia, pág 23

As Brumas de Avalon traz a história do rei Artur recriada sob uma perspectiva completamente nova, colocando o foco da trama nas personagens femininas.

Os acontecimentos seguem o rumo tradicional do ciclo arturiano, em uma Bretanha onde a religião pagã se vê fortemente ameaçada pelo avanço do cristianismo, o Grande Rei está prestes a morrer. Sem herdeiros, precisa escolher entre um de seus reis menores seu sucessor e, entre os candidatos, nenhum receberia apoio de todos os povos da Bretanha. O que o povo bretão precisava era de um líder capaz de unir cristãos e pagãos.

Nesse contexto, Viviane, a Senhora de Avalon, com a ajuda de Taliesin, o Merlin da Bretanha (o termo "Merlin" nessa história é um título dado aos homens dentro da religião pagã), manipula sua irmã Igraine para que ela traia seu marido Gorlois, o duque da Cornualha, e se case com Uther Pendragon, o mais forte candidato a sucessor do Grande Rei. Juntos, Igraine e Uther conceberiam a criança que seria o futuro da Bretanha, em cujas veias correria o sangue do líder romano e o sangue real de Avalon, unificando todos os povos.

Quando anos depois Artur, filho de Uther e Igraine, é coroado Grande Rei da Bretanha, ele jura preservar ambas as tradições, cristã e pagã, mas acaba vendo-se manipulado pelas duas mulheres mais importantes da sua vida: de um lado a sua irmã Morgana, filha do primeiro casamento de Igraine e sacerdotisa de Avalon, por quem Artur nutre temor e devoção; do outro, Gwenhwyfar, Grande Rainha da Bretanha, sua esposa e grande amor, que é a personificação da tradição cristã.

No meio de tramoias e intrigas, ambos os lados, cristão e pagão, lutam para dominar o cenário político e manter a hegemonia religiosa na Bretanha.
"Gwenhwyfar sentiu-lhe a mão imóvel, e pediu:- Agora a senhora deve ficar quieta, mãe... Tudo deve ser como Deus queira. A senhora não pode invocar a Deusa dos demônios aqui...Igraine sentou-se imediatamente. Apesar do rosto emaciado e doente, dos lábios azulados, ela olhou para a outra de tal modo que Gwenhwyfar lembrou-se, subitamente: Ela também é Grande Rainha desta terra...- Você não sabe do que está falando - sentenciou Igraine com piedade, orgulho e desprezo. - A Deusa está acima todos os outros deuses. As religiões podem aparecer e desaparecer, como os romanos sem dúvida sabiam e como os cristãos descobrirão, mas ela está acima de todas elas." A Grande Rainha, pág 136

Confesso que, para mim, acostumada como sempre fui a ver a Morgana como vilã, foi estranho no primeiro momento vê-la não só como protagonista, mas quase como "mocinha". Mas a forma como Marion conduz a história faz com que o leitor aceite o seu ponto de vista muito facilmente. É algo muito marcante ver uma história tão essencialmente masculina como a lenda do rei Artur, sendo não só apresentada de um ponto de vista feminino, mas trazendo personagens femininas que vão muito além do idealismo medieval da donzela indefesa e pura. Todas as mulheres da história possuem personalidade forte e comandam seus próprios destinos.

A construção psicológica dos personagens é muito boa e completa. Embora a história seja focada nas mulheres, todos os personagens, homens e mulheres, têm seus desejos e intenções bem destrinchados pela autora. É uma história que não tem mocinhos nem vilões, ninguém é só bom ou só mau. São pagãos contra cristãos, sem que nenhum dos dois lados meça seus esforços para suprimir o outro. Todos os personagens possuem personalidades fortes e marcantes, com defeitos e qualidades, justificando seus erros e acertos pela vontade de Deus ou da Deusa.

"- Pois ficarei bêbado - disse Gwydion com amargura. - Que assim seja. Bebo à morte e à desonra... De Artur, e minha!Voltou a esvaziar o copo e atirou-o para um canto, onde ele caiu com um som metálico.- Que seja como quer o destino. O Gamo-Rei reinará na floresta até o dia ordenado pela Senhora... Pois todos os animais nasceram e se juntaram aos outros de sua espécie e viveram e trabalharam de acordo com as forças da vida e, por fim, entregaram novamente seus espíritos à guarda da Senhora..." O Gamo-Rei, pág 211

Algo muito interessante são as relações familiares criadas pela Marion. Viviane, que até então eu nunca tinha visto como tendo parentesco com Artur, é irmã mais velha de Igraine. Taliesin é pai de Igraine e Morgausse. Morgausse, que geralmente é apresentada como irmã de Artur, nessa história é tia dele, e Mordred ao invés de ser seu filho é filho de Morgana. Lancelote também possui parentesco com Artur, sendo o filho mais velho de Viviane.

Marion fez uma extensa pesquisa bibliográfica para escrever a série, especialmente no que diz respeito à religião pagã celta. Embora seu texto difira dos textos clássicos do ciclo arturiano em muitos detalhes, no corpo geral a história segue o mesmo rumo de obras consagradas como as de Thomas Malory e T. H. White.

"O que os sacerdotes não sabem, com o seu Deus uno e sua verdade única, é que não existe história totalmente verdadeira. A verdade tem muitas faces e assemelha-se à velha estrada que conduz a Avalon: o lugar para onde o caminho nos levará depende da nossa própria vontade e de nossos pensamentos e, talvez, no fim, cheguemos ou à sagrada ilha da eternidade, ou aos padres, com seus sinos, sua morte, seu Satã e Inferno e danação... Mas talvez eu seja injusta com eles. Até mesmo a Senhora do Lago, que odiava a batina do padre tanto quanto teria odiado a serpente venenosa, e com boas razões, censurou-me certa vez por falar mal do Deus deles.'Todos os deuses são um só Deus', disse ela, então, como já dissera muitas vezes antes, e como eu repeti para minhas noviças inúmeras vezes, e como toda sacerdotisa, depois de mim, há de dizer novamente, 'e todas as deusas são uma só Deusa, e há apenas um iniciador. E a cada homem a sua verdade, e Deus com ela'." A Senhora da Magia, pág. 10-11

Fichas:

As brumas de Avalon - Fichas dos 4 volumes.
Resenha por: Thaline Mafra

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